11.1.05

ESCREVO-TE A

ESCREVO-TE A sentir tudo isto
e num instante de maior lucidez poderia ser o rio
as cabras escondendo o delicado tilintar dos guizos nos sais de
prata da fotografia
poderia erguer-me como o castanheiro dos contos sussurrados
junto ao fogo
e deambular trémulo com as aves
ou acompanhar a sulfúrica borboleta revelando-se na saliva dos
lábios
poderia imitar aquele pastor
ou confundir-me com o sonho de cidade que a pouco e pouco
morde a sua imobilidade

habito neste país de água por engano
são-me necessárias imagens radiografias de ossos
rostos desfocados
mãos sobre corpos impressos no papel e nos espelhos
repara
nada mais possuo
a não ser este recado que hoje segue manchado de finos bagos
de romã
repara
como o coração de papel amareleceu no esquecimento de te
amar

AL BERTO (1948-1997)
O Medo

1 comentário:

Anónimo disse...

A pouca força que me sobra
ainda deu para ter uma lágrima a cair
neste poema do al berto