8.7.07

Uma noite para nunca mais


Nunca mais esquecerei esta noite, a primeira noite no campo, que fez da minha vida uma noite longa e sete vezes aferrolhada.
Nunca mais esquecerei aquele fumo.
Nunca mais esquecerei as pequeninas caras das crianças cujos corpos eu tinha visto transformarem-se em espirais sob um azul mudo.
Nunca mais esquecerei estas chamas que consumiram para sempre a minha Fé.
Nunca mais esquecerei este silêncio nocturno que me privou, para a eternidade, do desejo de viver.
Nunca mais me esquecerei estes momentos que assassinaram o meu Deus e a minha alma, e os meus sonhos, que tomaram a aparência de um deserto.
Nunca mais esquecerei isto, mesmo que tenha sido condenado a viver tanto tempo quanto o próprio Deus. Nunca mais.

Elie Wiesel in Noite

20.5.07

OFERTA

O que tenho para te dar? Uma gramática de sentimentos,
verbos sem o complemento de uma vida, os substantivos
mais pobres de um vocabulário íntimo - o amor, o desejo,
a ausência. Que frase construiremos com tão pouco? A
que léxico de paciência iremos roubar o que nos falta?

Então, ofereço-te uma outra casa. As paredes têm a
consistência do verso; o tecto, o peso de uma estrofe.
Abro-te as suas portas; e o sol entra pela janela de
uma sílaba, com o seu fogo vocálico, como se uma
palavra pudesse aquecer o frio que te envolve.

E pergunto-te: que outras palavras queres? A música
sonora de um ócio? O espesso manto com que o veludo
se escreve? O fundo luminoso do azul? Poderia dar-te
todas as palavras na caixa do poema; ou emprestar-te
o canto efémero em que se escondem do mundo.

Mas não é isso que me pedes. E a vida que pulsa
por entre advérbios e adjectivos esfuma-se depressa,
quando procuramos seguir a linha do verso. O que fica?,
perguntas-me. Um encontro no canto da memoria. Risos,
lágrimas, o terno murmúrio da noite. Nada, e tudo.

Nuno Júdice, in O Estado dos Campos

7.5.07

domingos

Creio que domingo, ou domingos, tal como os feriados, possam vir a ser excelentes temas de poesia.
Os domingos dos passeios tristes
os domingos tristes
os domingos cinzentos
nem sempre chuvosos
os domingos de ressaca
os domingos na cama
os domingos de preparação de
actividades para toda a semana
os domingos das tarefas domésticas
por oposição
aos domingos de nada fazer
por opção
pelo descanso
e reposição
de energias
o domingo estupidificante de passeio ao
centro comercial
o domingo que
o domingo

Também há aquele domingo fantástico, mas não sei se valerá a pena falar dele.

29.4.07

De volta

Dado que é várias vezes mencionada a falta de posts neste blog, vou tentar reavivá-lo. Os gatos continuam e estão de boa saúde. Reunem-se regularmente às Sextas-feiras e os livros são quase sempre o centro das atenções.

25.9.06

Feitiço

Enfeitiço-me pela letra f
Revejo-te nela na forma como caminhas
no teu ar fino recto e decidido
na forma franca como te expões
na felicidade estampada na face
quando me encontras
e falas e afagas
o meu rosto
na facilidade com que fintas
o destino e acreditas que
o feio se pode transformar em belo
na fé inabalável que tens no amor
e na força do querer

consoante fricativa labiodental surda
símbolo químico do flúor
símbolo físico de força farad frequência
símbolo matemático de função
abreviatura musical de forte
como tu

27.8.06

Apaixono-me pela letra C

Apaixono-me pela letra C ao olhar-te e pergunto-me porquê.
Vejo-a no teu rosto, na linha dos teus olhos, no contorno
do nariz, no traço das sobrancelhas, no limite da face, na
forma dos lábios,
quando os abres
ou fechas
e beijas;
na sombra do teu rosto
na parede do quarto,
no vidro da janela
com ausência;
nas palavras que sussurras o meu nome,
nos cabelos que te cobrem o tronco
e que em suspenso me dizem
como amar-te.

10.8.06

Rico País



Creio que os descobridores deste paraíso na América Central se aperceberam da fabulosa biodiversidade que nele se concentra e o apelidaram de Costa Rica. É também a Costa dos Mosquitos, e eu comprovei-o na Lagoa Samay, e, sem sombra de dúvida, o país com maior biodiversidade do planeta. Caminhar pela selva tem sido das experiências mais fabulosas que eu tenho tido, dada a variedade de fauna e flora que encontramos.

Recomenda-se.

2.8.06

As três idades da mulher - Gustav Klimt



Mais uma obra fantástica exposta na Galeria de Arte Moderna, em Roma.

31.7.06

diacrónica da caparica ou a ressaca da 1.ª viagem

Foram buscar-me ao cacilheiro que atravessou o Tejo na noite refrescante de Lisboa. Após Roma, qualquer aragem é bem vinda, seja do rio ou oceano. A ausência dos amigos da viagem e das cantigas aprofundou o silêncio e as poucas horas dormidas junto com as longas esperas nos aeroportos provocaram uma dormência que não me permitiu explicar os dias anteriores vividos intensamente.

Hoje partiram cedo para uma curta viagem e só amanhã poderei contar-lhes do sucesso musical dos diversos concertos do Coro da AMIT por terras romanas, dos miúdos sorridentes, meigos e de olhos profundos do Coro de Guatemala, dos bem dispostos franceses do Coro da Bretanha e dos músicos e cantores "um pouco impertigados" do Coro de Gales.

No seu regresso dir-lhes-ei do que revivi pouco mas intensamente daquela cidade, porque depois de tantas viagens, gentes e lugares já concluí que o que importa mesmo são os momentos únicos em que se apreciam, por exemplo, nas Galerias de Arte Moderna e Antiga, acompanhada de amigos, os quadros de sempre.


















Judite decapitando Holofernes
de Michelangelo Merisi da Caravaggio
1597-1598

























Shangai Blues de Elisa Montessori (n. Genova, 1931)

29.7.06

pequena crònica de calor e fontes

Roma é conhecida pelas suas dezenas de fontes que se justificam largamente pelo calor que se faz sentir durante o periodo estival. Esta semana foi a prova disso e se nào fosse a possibilidade de renovarmos assiduamente a garrafa de àgua nas fontes fresquissimas da cidade eterna poderiamos rapidamente entrar na falencia com a aquisicào continuada de garrafitas de àgua.

Aparte este inconveniente, insuportavel para alguns, a estada tem sido muito boa com excelentes concertos.

23.7.06

ausente

Primeiro em Roma, depois de férias na Costa Rica, prometo-vos fotos no regresso.

16.7.06

Cheiro a sol

Finalmente o calor, mas não muito intenso;
o céu azul, com uns raios brancos;
o vento, pouco forte e quente;
o cheiro da terra e de sol.

27.6.06

A Carta

[...]Para que a carta lhe chegasse às seis horas, ela devia ter-se sentado a escrevê-la logo após a sua saída; tivera de lhe colar um selo e mandar alguém pô-la no correio. Era mesmo típico de Clarissa. A visita dele perturbara-a, fizera-a pensar em muita coisa. E, por momentos, quando lhe beijou a mão, tinha-o lamentado, invejado até; recordando, quem sabe (pareceu-lhe ler isso no seu olhar), algo que ele dissera em tempos: que se ela casasse com ele poderiam mudar o mundo; em vez disso, a realidade era isto, o envelhecimento, a mediocridade. Depois ela obrigara-se, com a sua indomável vitalidade, a pôr de lado todas essas coisas, pois existia em Clarissa uma corrente de vida cuja força, resistência e capacidade para superar obstáculos, conduzindo-a ao triunfo, ele nunca tinha visto em pessoa nenhuma. Sim; mas mal ele deixou a sala, ela reagiu de imediato. Tivera imensa pena dele; pensara em tudo o que poderia fazer para lhe agradar (excepto uma coisa), e ele imaginava-a de lágrimas nos olhos, correndo para a secretária a fim de enviar aquela frase, aquela saudação, ao seu encontro naquele quarto de hotel... "Adorei voltar a ver-te!" E era sincera.[...]

in "Mrs. Dalloway" by Virginia Woolf