se conseguires entrar em casa e
alguém estiver em fogo na tua cama
e a sombra duma cidade surgir na cera do soalho
e do tecto cair uma chuva brilhante
contínua e miudinha - não te assustes
são os teus antepassados que por um momento
se levantaram da inércia dos séculos e vêm
visitar-te
diz-lhes que vives junto ao mar onde
zarpam navios carregados com medos
do fim do mundo - diz-lhes que se consumiu
a morada de uma vida inteira e pede-lhes
para murmurarem uma última canção para os olhos
e adormece sem lágrimas - com eles no chão
AL BERTO (1948-1997)
O Medo
Fórum independente vocacionado para a discussão de ideias e promoção de todo o género de eventos culturais e de intervenção cívica.
Os gatos reunem todas as Sextas-feiras, na Miragaia, em Angra do Heroísmo.
30.8.05
26.8.05
18.8.05
De regresso
Ia começar por escrever que estou de regresso a casa, mas, apesar de ter estado ausente da ilha durante 3 semanas, nunca me senti fora de casa, pelo contrário. O difícil foi regressar.
Proponho-vos a partir de hoje e por um período ainda não definido uma viagem pelas gentes e lugares por onde passei. Não vos direi onde foi feita a foto, aceitam-se palpites.

Proponho-vos a partir de hoje e por um período ainda não definido uma viagem pelas gentes e lugares por onde passei. Não vos direi onde foi feita a foto, aceitam-se palpites.
7.8.05
Mensagem
Caros colegatos, estou de férias ha duas semanas e é a primeira vez que tenho acesso a um computador e estranho verificar que nao colocaram um unico post. Se tivesse disponibilidade falava-vos da viagem mas ha mais um museu, uma rua, uma feira, uma novidade, que me espera.
Eu estou optima e a adorar. Vemo-nos a meados de Agosto.
Um abraco.
Eu estou optima e a adorar. Vemo-nos a meados de Agosto.
Um abraco.
23.7.05
Duende
Meu duende real que não és meu,
meu chão silencioso e verdadeiro,
por ti tenho sentido não ser mais
o vago sonho humano que antes fui.
Por um gesto que fiz ou que não fiz,
pela palava errada que gritei
ou pelo verso tosco que escrevi,
logo o rigor dos infernos me persegue;
noites desertas, onde os astros passam
na redoma calada dos espaços
e traçam uma falsa astrologia;
ferozes dentes nus, que despedaçam
as imagens doiradas que antes quis;
restos de luz, restos de sombras, nada...
António Franco Alexandre (1944)
15.7.05
Música da alma
Um espectáculo para sempre - ontem, no Auditório do Ramo Grande, Praia da Vitória, o Quarteto Borodin com Valentin Berlinsky, no violoncelo - o octogenário que já toca há 55 anos neste fantástico quarteto.
6.7.05
Metal rosicler
Cada palavra uma folha
no lugar certo.
Uma flor de vez em quando
no ramo aberto.
Um pássaro parecia
pousado e perto.
Mas não: que ia e vinha o verso
pelo universo.
CECÍLIA MEIRELES in Antologia Poética
no lugar certo.
Uma flor de vez em quando
no ramo aberto.
Um pássaro parecia
pousado e perto.
Mas não: que ia e vinha o verso
pelo universo.
CECÍLIA MEIRELES in Antologia Poética
5.7.05
TANTO SILÊNCIO
Para cá de mim e para lá de mim, antes e depois.
E entre mim eu, isto é, palavras,
formas indecisas
procurando um eixo que
lhes dê peso, um sentido capaz de conter
a sua inocência
uma voz (uma palavra) a que se prender
antes de se despedaçarem
contra tanto silêncio.
São elas, as tuas palavras, quem diz «eu»;
se tiveres ouvidos suficientemente privados
podes escutar o seu coração
pulsando sob a palavra da tua existência,
entre o para cá de ti e o para lá de ti.
Tu és aquilo que as tuas palavras ouvem,
ouves o teu coração (as tuas palavras «o teu coração»)?
Manuel António Pina (1943)
in Os Livros
E entre mim eu, isto é, palavras,
formas indecisas
procurando um eixo que
lhes dê peso, um sentido capaz de conter
a sua inocência
uma voz (uma palavra) a que se prender
antes de se despedaçarem
contra tanto silêncio.
São elas, as tuas palavras, quem diz «eu»;
se tiveres ouvidos suficientemente privados
podes escutar o seu coração
pulsando sob a palavra da tua existência,
entre o para cá de ti e o para lá de ti.
Tu és aquilo que as tuas palavras ouvem,
ouves o teu coração (as tuas palavras «o teu coração»)?
Manuel António Pina (1943)
in Os Livros
3.7.05
SONETO AMOROSO
Dar sempre chama, sem me desfazer;
após sempre chorar, não me acabar;
após tanto correr, não me cansar;
e após sempre viver, jamais morrer;
depois do mal jamais me arrepender;
de tanto engano, não me desenganar;
depois de tanta dor, não me alegrar;
nunca me rir, após tanto sofrer;
em tantos labirintos, não perder-me,
nem após tanto olvido, ter lembrado
- que fim alegre pode prometer-me?
Antes morto estarei que escarmentado:
já não penso tratar de defender-me,
se não ser deveras desgraçado.
Francisco de Quevedo (1580-1645)
Antologia Poética
(tradução de José Bento)
após sempre chorar, não me acabar;
após tanto correr, não me cansar;
e após sempre viver, jamais morrer;
depois do mal jamais me arrepender;
de tanto engano, não me desenganar;
depois de tanta dor, não me alegrar;
nunca me rir, após tanto sofrer;
em tantos labirintos, não perder-me,
nem após tanto olvido, ter lembrado
- que fim alegre pode prometer-me?
Antes morto estarei que escarmentado:
já não penso tratar de defender-me,
se não ser deveras desgraçado.
Francisco de Quevedo (1580-1645)
Antologia Poética
(tradução de José Bento)
1.7.05
30.6.05
28.6.05
26.6.05
Subscrever:
Mensagens (Atom)