23.10.04

Miragatos são notícia

Os Miragatos sem nenhum esforço de marketing começam a dar nas vistas ou, no melhor dos sentidos, a mostrar as garras. As iniciativas públicas têm sido sempre anunciadas na comunicação social, em parte graças à Carmina, e as pessoas começam a interrogar-se sobre tão estranho nome e as actividades que desenvolvem.

A primeira entrevista para a rádio surgiu ontem, a seguir veio novo convite para estarmos presentes num evento cultural no próximo fim de semana na Pousada da Juventude.

Hoje à noite, segundo a informação no site da Carmina (nome de avó) os “Miragatos: objectos de culto” vão reunir-se, na Carmina Galeria, para um serão cultural. Está previsto a projecção de um documentário em vídeo da autoria de Paulo Henrique Silva, tratando aspectos da ruralidade na contemporaneidade: o ciclo do vinho, do tabaco e do barro.

Vamos, então, até lá rugir um pouco e, essencialmente, falar de coisas maiores.

19.10.04

Receituário (2)

Enquanto o miolo repousa procede-se à confecção da capa.

ingredientes
cartão com 2 mm de espessura do tamanho de uma folha A4
4 meadas de lã multicolor, de preferência bem fofa
1 par de agulhas de tricotar

confecção
Corta-se o cartão em 2 na vertical e deixa-se descansar. Tricota-se, em ponto de gato, 2 peças em lã com as dimensões de 30x21 cm. Cosem-se as orlas das peças, fechando-as, separadamente, inserindo o cartão por dentro.

As capas ficam prontas para serem presas ao miolo, contudo tem de se aguardar até nova sessão dos gatos, que inventarão como fazê-lo.


6.10.04

Trabalhos de mãos - receituário (1)

Os gatos botaram mãos ao trabalho e deram início aos objectos de culto – ele são livros, catálogos, vestidos, projectos vários. Haja matéria prima porque ninguém deterá a imaginação.

Receita de um livro feito à mão:

ingredientes para o miolo
38 folhas de papel de 230 x 325 mm, com 300 gr/m2
cordel
agulha grossa
régua
furador

confecção
Dobram-se as folhas ao meio na vertical e vincam-se bem. Dividem-se por 6 cadernos de 3 folhas cada e fazem-se 6 furos nesse vinco, 2 ao meio, com a distância de 1 cm entre eles, e os restantes nos pontos equidistantes entre as suas margens e o centro. Cosem-se os cadernos separadamente com o cordel nos furos executados anteriormente e depois de cosidos prendem-se uns aos outros. Findo este trabalho está o miolo pronto com 76 páginas à espera de serem escritas.
Deve deixar-se repousá-lo debaixo de um objecto plano e pesado até à sessão seguinte dos gatos.

26.9.04

A alma

Case Venie é o último romance de Romana Petri editado em Portugal. Esta escritora continua a surpreender-me.

Partiu de manhã cedo, como quando viera, com a mesma bicicleta ruidosa que o Parcio lhe emprestara. Mas foi uma viagem de regresso sem imaginações, e pareceu-lhe longuíssima.

Quando chegou aos declives do Pausillo, sentiu um grande cansaço e parou à sombra de uma amoreira, porque notou que algo a atacava por dentro, algo que não tinha nada a ver com os órgãos do corpo. Era algo de imaterial e não podia ser outra coisa senão a sua alma.

Alcina acreditara sempre na alma, mas considerava-a sobretudo um meio para conhecer tudo excepto ela própria. E se agora se sentia tão cansada era porque a sua alma se estava rebelando, e usava todo aquele mal-estar para a fazer compreender que a memória e a vontade dos homens eram as suas faculdades principais, e eram meios verdadeiramente extraordinários para obtermos um conhecimento mais íntimo daquilo que somos. Então, Alcina compreendeu que a alma se lhe estava revelando com explicação da vida e da morte, e que a estava consolando recordando-lhe muitas coisas. Sem saber porquê concentrou-se de repente na ideia do sonho, que lhe parecia ser a mais convincente. Pensou que no sonho o homem se move na imobilidade do sono, e que dessa maneira espantosa se encontra com os seus defuntos. Alcina não compreendeu como é que era possível que uma ideia tão simples conseguisse convencê-la e no entanto assim era, a capacidade que os mortos tinham de aparecer nos sonhos dos vivos deu-lhe a certeza de que alguma coisa deles sobrevivia de facto e que a alma era sem dúvida imortal e verdadeiramente participante do divino.

in Petri, Romana, Case Venie, Cavalo de ferro, 2004, 1.ª edição, p. 181

6.9.04

Setembro

Não percam Setembro em todo o seu esplendor no próximo capítulo de EUDEMIM, do nosso colegato Tchang. Eis alguns dos aromas:
"Cheira à caruma, ao verde do milho, ao sangue das uvas inchadas que o lavrador despiu da parra, aos figos esgaçados, às abóboras e aos mogangos, à tomatada que, no alpendre da casa, está dependurada a escorrer, ao açaflor a secar em tabuleiros, às maçãs guardadas em cestos de vimes, com asa, à cal das paredes ancestrais, ao álcool das fermentações…"

19.8.04

Aí vai um pouco do sarau de aniversário

Há uma lua nesta manhã de luz.

Custa-me acordar, porque me custa sair de mim, voltar ao exterior, ao dia demasiado azul, ao barulho, ao sol sem tempo.
Mas esta manhã, há algo semelhante à noite, ao silêncio, ao teu rosto dentro do meu rosto e é segura – a manhã - para passar à festa de ti.
A lua está já a cair, mas recorta o céu, sobrancelha horizontal, no teu rosto oval. E dói-me sair do calor nu onde me aninho – mãe da madrugada. E curvo-me, a apanhar o silêncio com que faço o itinerário de todos os dias. Como quem apanha frutos para matar a fome. Para matar o tempo que falta queimar. Para matar a morte.

Sou obrigada à rotina da água, à roupa, à rua.

Luísa Ribeiro

13.8.04

gata aniversariante

Solicita-se autorização à gata aniversariante para colocar no Tiribé um cheirinho do recital de nós 4 - o 10.º segredo.

12.8.04

Parabéns a você nesta ...

... data querida, muitas felicidades, muitos anos de vida para a nossa querida companheira gata, cujo pseudónimo não me consigo lembrar, dado que é um daqueles bichos que nunca se conseguiu registar no Tiribé. Adiante ...

Lá estaremos nós os 4 hoje à noite com o 10.º segredo.

Beijinhos. Miauuuuuuu!

4.8.04

La donna delle Azzorre

"La donna delle Azzorre" - A Senhora dos Açores - da italiana Romana Petri, obra editada em Portugal pela Cavalo de Ferro, localiza a sua trama na ilha do Pico, e será certamente uma excelente leitura de Verão. O Pico está lá todo em toda a sua grandeza de lava, gentes, espaço e cheiros.

Romana Petri esteve recentemente nos Açores e falou da sua escrita. Os livros surgem-lhe como uma urgência, da necessidade imediata de os escrever, pelo que não se força a fazê-lo. Assim surgiu A Senhora dos Açores no decurso de uma viagem à ilha do Pico onde se tinha deslocado para, num local calmo, tentar adiantar um romance que tinha entre mãos há cerca de 3 anos. A urgência de escrever esta história fê-la interromper o romance e em poucas semanas surgiu a obra que veio a ser premiada pela crítica italiana com o Prémio Grinzane Cavour para a narrativa italiana, em 2002.

Segundo a autora, uma das características da sua obra é a musicalidade. Ela tenta criar frases musicais e escreve um livro com a intenção da frase poder ser cantada. Tal característica poderá dever-se ao facto de o pai ter sido um cantor lírico e desde muito nova ouvir música, principalmente melodrama, e isso marcou-a ao ponto de tentar sempre cantar as frases dos seus textos.


"Una donna italiana, umbra e insegnante di francese, approda sull’Isola di Pico, nelle Azzorre. Il suo soggiorno è una lenta progressione dello smarrimento dell’anima, dell’alienazione dalla realtà esterna. Abbandonandosi alle suggestioni di un paesaggio straordinario ed esotico e di un popolo a lei estraneo, la protagonista si perde, distaccandosi dai canoni della civiltà occidentale. Vive in uno stato quasi allucinato che trova complicità nell’infinità del mare, nella vegetazione triste e selvaggia dell’Isola. La sofferenza dell’anima sembra quasi proiettarsi e trasfigurarsi sia nell’ampiezza del paesaggio, sia nel vibrante dettaglio dei fiori e dei sassi. Isola e anima diventano un’unica cosa, luogo geografico e metafora esistenziale allo stesso tempo. Realtà e fantasia si compenetrano e l’anima della scrittrice (e quindi la scrittura stessa) passa da esplosioni di felicità iridescente a un vuoto cupo e senza soluzione. Ma una soluzione c’è, come una trama e per quanto suggestivo e fuorviante, questo romanzo approda a una conclusione netta, che non lascia spazio a interpretazioni.
"La donna delle Azzorre (Piemme editore) è l’opera di un’autrice, italiana, Romana Petri, fra le più stimate. E che meglio riesce a rendere sulla pagina gli aspetti più ambigui dell’animo umano. Una lettura che ci distacca dalla quotidianità per trasportarci su altre terre, su altri stati d’animo."


Alberto Grandi

26.7.04

literatura açoriana?

E lá rumaram os gatos à Carmina galeria. O vinho branco da casa é divinal, o chá estava óptimo e a conversa, aos poucos, ganhou vivacidade e  forma.

Viu-se um filme, leram-se poemas, partilharam-se livros e no final contaram-se anedotas. O filme: de Rui Melo. Os poetas: Sophia Breyner, Emanuel Félix, Nuno Júdice e Manuel Alegre. As anedotas: pelo inimitável Belarmino Ramos. A conversa: Há uma literatura açoriana?

22.7.04

gatos na galeria

Os miragatos vão sair da toca no próximo sábado e dirigir-se à Galeria Carmina,  na Ladeira Grande. Alguns já lá estiveram no dia da inauguração mas o faro apurado dos felinos detectou um bom petisco para aqueles lados e decidiram voltar. Em troca, far-se-ão acompanhar de uns livros de poesia.

18.7.04

“Nenhum Olhar"

Quando li "Nenhum Olhar", de José Luís Peixoto, sublinhei estas passagens, que aqui estão agrupadas mas que surgem ao longo do romance. Perceberão porque as quero partilhar convosco.
 
Somos uma agulha de pinheiro diante de um incêndio, somos um grão de terra diante de um terramoto, somos uma gota de orvalho diante de uma tempestade.
 
Penso: talvez a dor exista para nos avisar de uma dor maior.
 
Penso: talvez o céu seja um mar grande de água doce e talvez a gente não ande debaixo do céu mas em cima dele; talvez a gente veja as coisas ao contrário e a terra seja como um céu e quando a gente morre, quando a gente morre, talvez a gente caia e se afunde no céu.
 
Penso: talvez haja uma luz dentro dos homens, talvez uma claridade, talvez os homens não sejam feitos de escuridão, talvez as certezas sejam uma aragem dentro dos homens e talvez os homens sejam as certezas que possuem.
 
Penso: talvez o sofrimento seja lançado às multidões em punhados e talvez o grosso caia em cima de uns e pouco ou nada em cima de outros.
 
Penso: o lugar dos homens é uma linha traçada entre o desespero e o silêncio.
 
Penso: não existir, ser o esquecimento de alguém esquecido para sempre, morrer muitas vezes morto.
 
Penso: se o castigo que me condena se fechar em mim, se aceitar o castigo que chega e o guardar, se o conseguir segurar cá dentro, talvez não tenha de suportar novos julgamentos, talvez possa descansar.
 
Penso: talvez eu já não seja este corpo que me tornei, talvez eu já não seja esta forma dentro deste corpo, talvez eu seja eu já morto só a sofrer, sem vontade, só à espera da morte que nunca chegará.
 
Penso: um dia pode ser mil anos. Penso: ninguém sabe ao certo se passou um ano, ou mil anos, ou uma hora rápida, num dia que passou.
 
O mundo acabou. E não ficou nada. Nem as certezas. Nem as sombras. Nem as cinzas. Nem os gestos. Nem as palavras. Nem o amor. Nem o lume. Nem o céu. Nem os caminhos. Nem o passado. Nem as ideias. Nem o fumo. O mundo acabou. E não ficou nada. Nenhum sorriso. Nenhum pensamento. Nenhuma esperança. Nenhum consolo. Nenhum olhar. 
 
in PEIXOTO, José Luís, Nenhum Olhar



15.7.04

Sotaque

"Para algum imigrante, o sotaque pode ser uma desforra, um modo de maltratar a língua que o constrange. Da língua que não estima, ele mastigará as palavras bastantes ao seu ofício ao dia-a-dia, sempre as mesmas palavras, nem uma a mais. E mesmo essas, haverá de esquecer no fim da vida, para voltar ao vocabulário da infância. Assim como se esquece o nome de pessoas próximas, quando a memória começa a perder água, como uma piscina se esvazia aos poucos, como se esquece o dia de ontem e se retêm as lembranças mais profundas. Mas para quem adotou uma nova língua, como uma mãe que se selecionasse, para quem procurou e amou todas as palavras, a persistência de um sotaque era um castigo injusto

in BUARQUE, Chico, Budapeste, ed. D. Quixote, 1.ª edição, 2004, p. 99