Miragatos: objectos de culto

19.5.06

Aproveito também para publicar do mesmo autor, outros dois trabalhos que teria muito gosto em oferecer a minha voz um dia.

PAX ÆTERNA

Dá à terra o tirado da terra
Frutifique em ti teu pai.
Abre teu nome ao incógnito
Encosta teu rosto ao oculto.
És o tronco da passagem
Não cobices o sol aberto.
Dá à terra o tirado da terra
Entrega-te à terra a sorrir.
Não vês preferir o desespero
Desabrochar em teu corpo trancado?
Vai ao teu corpo trancado despedir o desespero
Frutifique em ti frutifique teu neto.
Dá à terra o tirado da terra
Entrega-te à terra a sorrir.
Dá ao tempo o devido ao tempo
Não fujas para outro lugar.
O herdeiro há-de herdar
Aprende a resignar.
Dá à terra o tirado da terra
Entrega-te à terra a sorrir.
Dá ao tempo o devido ao tempo
Aprende a serenar.

Na casa do humano casadas
Natureza e Lei casaram
Na casa do humano casadas
Natureza e Lei casaram.


Não vês que ao chamares por ti
Todas as bocas se emudecem?
Canários dependem de árvores plantadas
Cães alegram-se em horários definidos.
Os filhos confiam cegamente
Não vês que ao chamares por ti
Em tua boca nascerá o silêncio?
Por perto passam para a pesca pequena
Pequenos barcos paz caseira;
Só um paquete estrangeiro ao longe
Parte em dois os elementos.
Não vês que ao chamares por ti
Em tua boca nascerá o silêncio?
Em tuas mãos crescerá o deserto
Em teu coração ressequida solidão.
O paquete de luxo quebra em dois os elementos
Um só nos olhos, na alma e na memória.
Não vês que ao chamares por ti
Em tua boca nascerá o silêncio?
Em tuas mãos crescerá o deserto
Em teu espírito a cama do nada.

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